terça-feira, abril 19, 2011
quinta-feira, julho 02, 2009
sábado, dezembro 27, 2008
Os olhos dela eram como pequenas jóias.
"- Cuidado com aquilo que você deseja"...
Sejam como for os meus sempre se realizam.
Deus misericordioso morreu
Afogado na merda da sua própria criação.
Os milagres estão soltos ao Acaso
E já não é possível creditar os erros ao Oponente.
O coração dela era como uma pequena jóia
E ela portava asas
E eu voava livre atado a Ela.
Mas após algumas noites
Possuída por um demônio que não há
Ela alterou seu nome para Puta e perdeu as asas.
Desde então eu só vôo baixo,
De automóvel,
E me perco.
quarta-feira, dezembro 20, 2006
terça-feira, dezembro 19, 2006
quinta-feira, novembro 23, 2006
Nasci cristão,
Pentecostal, eu acho...
Por força do meu pai
Fui batizado numa igreja católica que o Papa não reconhece.
Nem me lembro do meu pai
A não ser o rosto massacrado por abscessos
No melhor estilo Charles Bukowski.
Depois de tudo e de nada,
Findei num burocrata profissional,
Passado a vapor,
Amado por uma bela mulher
Numa pequena casa amarela.
Já não sou cristão,
Mas tenho medo do Pai.
E quando meu demônio interior anseia por desatinos e riscos,
Espeluncas e mulheres bêbadas, feias e fáceis
Eu o aprisiono por mais mil anos no Abismo.
Mas ele canta –
Quase já não canta:
Não se deixe enganar por conquistas:
No final você morre.
domingo, agosto 20, 2006
Trancado mais uma vez por dentro.
Derrotado,
Refém.
Amor preenchido,
Obeso
Como uma barriga de meia-idade.
Já não persigo mais a Sinceridade,
Sou a estátua de um falso deus.
Meu último erro me libertará.
segunda-feira, janeiro 02, 2006
quarta-feira, setembro 14, 2005
sábado, setembro 10, 2005
quarta-feira, agosto 31, 2005
segunda-feira, agosto 15, 2005
Mas há dias perco a noção de quem sou.
E o meu rancor é uma loteria acumulada...
sexta-feira, agosto 05, 2005
E ele (que sou eu)
Segue errando pela vida
Em busca da sinceridade absoluta.
Ainda.
sexta-feira, julho 15, 2005
segunda-feira, julho 11, 2005
O céu está coberto de nuvens. Um temporal cai, lá fora e aqui dentro. Tenho medo que falte luz. O Solitário Com Medo do Escuro... - daria um bom título pra um livro nunca escrito. Eu gostaria de estar aí com você. Eu gostaria de gostar de estar aí com você. Eu gostaria de gostar de alguma coisa. Eu gostaria de ser igual a você. Eu gostaria de ser igual a todo mundo...
sexta-feira, julho 08, 2005
This one goes out to the one I've left behind
A simple prop to occupy my time
This one goes out to the one I love"
quarta-feira, junho 15, 2005
domingo, abril 03, 2005
Sou grato a ela por permitir que eu gaste meu próprio dinheiro.
Tenho medo:
A vida nunca fez muito sentido,
Mas estes dias tenho me sentido
REALMENTE cansado.
Ela dorme, impassível,
Linda,
Sem saber que falo sério quando digo
Que a sua existência é o que impede a minha de ser levada pelo vendaval.
Que Aquele que Julga permita que os olhos dela me vejam claramente
Por todos os anos
Apesar dos meus erros e crueldades.
E me conceda voz e muitos dias
Para que ela ouça todos os dias
Minha única verdade:
- Eu te amo.
sexta-feira, março 18, 2005
sexta-feira, dezembro 24, 2004
segunda-feira, dezembro 06, 2004
Tenho trinta anos recém completados
E a garota acaba de extrair um de meus sisos.
Não doeu nada e quando acabou
Era como se ele nunca tivesse sido meu.
Estou mais magro.
Meus olhos não focalizam muito bem
E meus rins já não têm funcionado a contento.
Tenho um emprego burocrático,
Mas já não passo tantas privações.
Nunca tive um automóvel ou qualquer outra coisa com rodas,
Mas já tive boas mulheres
E péssimas mulheres
E mulheres imaginárias.
Sinto falta de algumas delas...
Há algum tempo encontrei, perdida pela vida, minha última mulher;
Mas ela não sabe disso.
Tenho defeitos,
Pouca fé,
Nenhuma virtude.
Vícios,
Divertimentos,
Todas as tardes livres
E mais nada para fazer.
Enquanto escrevo, tomo uma sopa de legumes
E o sol arde nas pessoas que passam lá fora.
Há trinta anos sigo minha estrada para nada.
quinta-feira, novembro 04, 2004
Isso não é uma fuga
Ainda.
O mundo trancado num quarto de 3m x 3m:
Os livros,
A Rede,
A mulher (ela me parece morta),
Os sonhos esquecidos,
Os sonhos nunca sonhados.
Aqui dentro o verão já começou
E toda esta parafernália ligada em tomadas amplifica o calor.
A mulher se move enquanto dorme
(Já não parece tão morta então);
Todos na vizinhança dormem como ela
Um sono cansado,
Um sono falso,
Para amanhã voltar ao emprego absurdo
Para poder comprar proteína
Para agüentar continuar trabalhando.
A mulher dorme, agitada
(Ela vai se tornar uma estranha para mim,
Como as outras).
Eu, desperto, sem conseguir esquecer quem sou.
Todos dormem
E a escuridão dos atos humanos
Apagou todas as estrelas do céu.
E Deus observa.
terça-feira, novembro 02, 2004
Mais me fragmento.
Era da despersonalização.
Uma mulher,
Uma amante,
Uma escrava.
Sou um menino, uma máquina
E uma lésbica.
Sou Eu-mesmo
Multiplicado por cinco.
Devo ser mantido sob controle,
Anestesiado,
Numa jaula,
Minha língua cortada,
Porque sou um palhaço e meu amor por elas
A grande piada.
segunda-feira, setembro 20, 2004
sábado, setembro 04, 2004
terça-feira, agosto 17, 2004
Meu coração está aberto.
Mas ainda vou trancar
Minhas saudades dela
Dentro de um poema sem chave.
quarta-feira, agosto 11, 2004
Tenho agido mal ultimamente. Tenho agido mal e me comportado feito um cretino. Mas, apesar disso, estes têm sido dias alegres. Não são dias esplendorosos com noites apoteóticas. Chamo-os de alegre pelo simples fato de não serem desesperadores. Dias apenas, um depois do outro. Uma fileira de dominós caindo em câmera-lenta.
Não me importo por mentir descaradamente várias vezes por dia. Minto. Minto mesmo. Eles querem mentiras; o mundo quer mentiras e caras legais. “Bom dia, Senhor Puxa-Saco, sabia que eu não consigo mais olhar pra sua cara?!” Não, isso eu não posso dizer. Não ainda. Minto para que eles me deixem em paz. E estarei em paz enquanto não precisar mentir para mim mesmo.
Há alguns dias houve uma reunião no trabalho. Minha nova missão, de acordo com o Ministério Geral da Burocracia, consiste em atender cinco desgraçados por dia. Fazer o possível para manda-los de volta para casa antes da hora do almoço.
O próximo!...
Um homem de uns cinqüenta anos, alienado, leproso. Só tem a metade do dedo médio da mão direita. E a ponta do meio-dedo é aberta, como o cano de uma arma, e de dentro escorre pus amarelo-fosforescente. Deus o esqueceu no meio da superpopulação.
“Sim, senhor. Desejo um benefício, sim, senhor. E por isso estou aqui; pra te dar um papo de campeão, sim, senhor...”
Campeão? De quê? E não me chame de senhor. Eu não sou senhor, sou um cretino, isso sim. Sou um filho da puta mentiroso e quase tão desgraçado quanto você. Um pouco menos desgraçado talvez, ou um pouco mais, não sei. Com certeza mais louco; ou não estaria dando gargalhadas agora. Mas por que você não vai embora de uma vez, Senhor Leproso Estado Terminal da Silva? Não está entendendo nada do que eu falo e, além do mais, não vai ter direito ao benefício mesmo. A Lei não permite, não adianta papo de campeão; ela não foi criada para ajudar você. A Lei só quer encher gaiolas para que os advogados cobrem para esvazia-las. Apele para a Providência Divina, Ela atende logo ali, dobrando a esquina. Mas leve pão e um cobertor. Aqui está a sua senha: 30515.
Não, não precisa agradecer... e nem tente apertar minha mão. Ah, pelo amor de Deus, o senhor não vai espirrar agora, não é?!... Deixe para fazer isso daqui a dois minutos, por favor.
Agora só faltam quatro. Gosto dos olhos da menina linda. Os olhos dela estão sempre sorrindo; sorriem até quando ela não sorri. Será que o Fluminense ganha o jogo desta noite? Não, não adianta papo de campeão.
O próximo!...
sexta-feira, julho 30, 2004
segunda-feira, julho 26, 2004
Eu não leio mais livros
Embora ainda haja livros por ler.
Tenho poucos amigos e a maioria nem amigo é.
Minha vida tem nome de mulher,
Mas a alegria dela nunca vai combinar com a temperatura do meu sonho.
Meu rosto ostenta um corte cicatrizado por uma queimadura de frio.
Os anjos deixaram de existir há muito
E teorias e quadrados coloridos nunca explicarão o Amor.
No princípio havia poemas
Escritos numa bela caligrafia;
Poemas estes que logo definharão num único verso, magro
Árido, escrito por um profissional sem ética.
E este verso, fôlego final de todos os versos, desvanecerá em sua última palavra:
Fim –
A palavra-tudo.
No princípio havia poemas
Em que os versos voavam, livres, como a imaginação nos sonhos de uma criança.
Mas este,
Este poema não tem ar, nem lírica, nem sentido,
É uma pesada arca trancada por dentro.
Concebendo-o eu sigo e faço parte da legião que carrega o Destino como um estigma.
sábado, maio 08, 2004
quinta-feira, março 11, 2004
sábado, novembro 29, 2003
É essencial ser um palhaço, mas a água desmancha a maquilagem que ela prefere. A chuva segue caindo, miúda, mantendo à mostra meu rosto triste e feio. E esta noite é mais escura que as outras...
sexta-feira, novembro 28, 2003
Eu sou eu-mesmo ou quem represento?
Quem faz anos, o menino, o homem ou a farsa?
No dia do nascimento daquele que me impede de ser livre,
A chuva me batiza com um ou dois momentos de um prazer que Eu-mesmo escolhi...
A observa-la, canta minha tristeza de cabelos brancos
E a meu lado, como sombra, dança minha alegria de ontem
Silvando imóvel pelos ares...
sexta-feira, setembro 05, 2003
(A Beto, meu irmão, morto nesta manhã)
Jaz num coma de glicose
Aquele para quem a vida nunca foi doce.
O Homem se foi,
Não fica herança -
Apenas as pipas coloridas
Num infinito Céu azul...
segunda-feira, agosto 18, 2003
O projeto de uma obra
Ou um tiro na cabeça?
- Pergunte àquele
Que jaz doente por um quebranto
E depende da caridade de seus irmãos.
Não, não estou mais por aqui
Nem mesmo estou em outro lugar
- Eu já fui, há muito.
Quem me dera poder esperar...
quarta-feira, junho 18, 2003
Minha amada dorme à espera de mais um dia de trabalho:
Musa assalariada.
Eu, míope, ligeiramente envelhecido, insône sob o edredom macio
Fantasiado de sociedade e civilização.
As contas religiosamente em dia.
Geladeira abastecida de sonhos e alimentos saudáveis,
ar limpo de ácaros, assento à prova de sobressaltos.
Todas as manhãs, Eu, homenzinho, sapatos, camisa social e gravata,
Sociável e civilizado,
Burocrata, parte da equipe.
Os processos me preocupam, as vidas dentro deles mais ainda
Porque doem como um genocídio.
Todas as manhãs, lúcido
Fantasiado de mim mesmo.
À noite, meu fantasma assombra amigos universitários.
Os livros de Platão estão lá, por ler
E os meus olhos perdidos no trajeto entre um e outro cenário de desolação.
Minha amada dorme...
Eu, fantasiado,
As contas em dia...
À prova de sobressaltos...
Os processos...
Todas as manhãs...
E os meus olhos perdidos...
O Fim?
O Fim do poema?
O Fim da Vida?
Carimbar, rubricar e datar.
domingo, junho 08, 2003
Caríssimo Cláudio Filho:
Começo dizendo que nem sei o que dizer. Belos, por que não dizer belíssimos, os poemas que encontrei no seu Blog...
...Uma pena que os poemas do seu blog sejam meus!
Eu sei que a vida deve ser difícil para pessoas como você, mas não se sinta sozinho neste mundo. Há muitos por aí como você, embora - não sendo minha intenção assusta-lo - a maioria esteja internada em manicômios. A psiquitria batizou-os de esquizofrênicos...
Existe o caso clássico, padrão, do sujeito que numa bela manhã acorda achando que é Napoleão Bonaparte e nunca mais se recupera. Tudo bem, querer ser Napoleão é até compreensível... Mas querer ser eu?...
Não, amigo, não queira ser eu, muito menos escrever poemas - é o melhor conselho que eu lhe posso dar. Vá dançar, vá ao parque de diversões, vá arranjar umas garotas... Este é o lado luminoso da vida!
Não habite o subterrâneo de sua própria alma, não esteja dentro da dor de corações alheios, não seja vegetariano sem saber por quê, não perca tempo no bate-papo erótico do uol, não seja tímido, não ame uma única mulher, não seja preguiçoso, não tenha horror ao trabalho, não tente ser menos inteligente, não espere que lhe venham buscar em casa...
Não tente ser eu!...
Você não vai gostar, nem um pouco. Há vezes em que eu mesmo não suporto.
Meu caro, desligue este computador, procure ajuda.
Há um belo dia lá fora.
Um grande, muito grande e fraternal abraço,
Murilo Teixeira, autor de Leões Alados sem Juba.
quarta-feira, junho 04, 2003
domingo, maio 25, 2003
Latim é o veredicto. E desta decisão não cabe recurso à instâncias superiores...
sábado, maio 24, 2003
Agora sou o Homem-Pássaro
E tenho um grande amigo:
O Maior Carisma do Mundo.
sexta-feira, maio 09, 2003
Nunca mais voltarei à Casa da Moeda do Brasil. Isto é bom, é ótimo. À parte minha mulher-vida, com quem eu me casaria mesmo se nunca houvesse plantado meus pés aqui, o que levo deste lugar é uma tendinite no ombro direito e uma sacola com meia dúzia de humilhações. Ficarão para trás a ignorante arrogância dos tolos que me observavam através do mezanino; a ingênua esperança das mulheres de mais de quarenta anos que todas as manhãs sonham serem abduzidas por um viúvo rico; as piadas sobre a última rodada do Campeonato Brasileiro; o desaparecimento das doze estampas de Cinqüenta Reais; as demissões de amigos; os movimentos grevistas que sempre resultavam em nada...
Lá fora, reluz o ouro do sol de uma nova vida. Quase seis anos se passaram e continuo sem saber realmente quem eu sou. Um filho amado de Deus? Uma semente, que precisa apodrecer para se tornar o Sal da Terra? Não sei. Continuo nada sabendo. Mas me tornei um pouco mais cínico, um pouco mais vil, um pouco mais forte - um pouco mais de ferro. Choro muito menos agora, porém sou muito mais capaz de amar.
Fim. Nunca mais usarei este uniforme azul-desesperança. Obrigado, amados amigos, agradeço as felicitações por esta alforria. Alegremo-nos sempre por nossas conquistas, mesmo quando significam apenas um uniforme novo...
segunda-feira, abril 21, 2003
Ela tinha sempre um brilho no olhar
Olhos que me transformavam em pedra
Mas iluminavam o caminho.
Ainda que chovesse, ainda que o tempo fose curto
Ainda que o amor verdadeiro fosse uma mentira tremenda -
Aqueles olhos faróis sempre estavam lá...
Mesmo quando o vinho se transformou em lágrimas
Os seus olhos pareciam brilhar ainda mais...
Ela se foi há muito
E seus intactos espinhos de rosa rasgam agora a carne de outro homem.
mas os olhos continuam comigo
(Item único do espólio de um amor pequeno)
E brilham sob meu teto quando se apagam as luzes
Embora hoje isto não seja nem bom, nem mau.
domingo, abril 20, 2003
Dia morno. Morto. Morto mesmo.
O meu coração parado.
Minha cabeça doendo de tanto não pensar.
A cama dura me expulsou do sono às duas da tarde.
Eu aspiro a poeira dos carros que passam
Levando trabalhadores, criminosos e donas-de-casa;
Observo adolescentes vestidos como integrantes de gangues americanas
E meninas de seios seminus.
Ao sol, a arma do segurança informal reluz como ouro.
Os olhos do traficante de drogas ao meu lado me assustam,
Porque a Violência é pão nosso de cada dia
E não há ninguém que possa tirar o corpo de Judas do galho da árvore.
quem tiver ouvidos que ouça,
Quem tiver olhos que veja:
-Tudo está morto.
Inclusive eu
Que não fui poeta, nem homem,
Nem nada.
Santificado seja o Vosso nome.
Os últimos dias foram de palestras e dinâmicas de grupo. As palestras, com sempre, variaram do divertido e sonolento. Já as dinâmicas de grupo não passavam de brincadeiras infantis. Certamente que desenhar, fazer bonequinhos de argila, dançar e fazer teatro uniu muito mais o grupo, que mal se conhecia. O que eu realmente não suporto são os psicólogos. Nada contra as pessoas, contra o ser humano que detém o diploma desta carreira. O que me irrita é que o psicólogo, o profissional da psicologia só lhe diz coisas óbvias (o Óbvio Ululante, como diria Nélson Rodrigues):
- Senhor Murilo, após analisar o auto retrato que você desenhou, este bonequinho esquisito com um ponto de interrogação na cabeça, é possível perceber que você tem algumas dúvidas em relação a este novo emprego...
- É mesmo?... Não diga!
E depois vêm aquelas parábolas que todo mundo já cansou de ler - "O Carpinteiro", "A Raposa e o Bode", "O Jardineiro". E Por fim, as frases feitas - "é preciso entusiasmo para vencer", "pense em coisas boas". Meus caros, todas as parábolas e frases de efeito essenciais Jesus já proferiu há dois mil anos. Nesse caso o psicólogo acaba atuando como um Paulo Coelho que não deu certo.
A Humanidade sobreviveria sem psicólogos (e também sem blogs, ou blogueiros de mau humor).
Quanto a meus novos amigos, alguns futuros companheiros de agência, são pessoas de excelente nível cultural e grande senso de humor. Mas tenho sentido uma falta tremenda das piadas do Alair e do jeitão do Wiriadner que adicionava, pelo menos, um palavrão a cada frase dita. Não tenho saudade alguma da Casa da Moeda do Brasil, mas sinto uma falta imensurável de alguns de meus amigos peões.
Além de dar uma lida na apostila, vou aproveitar o feriado de Páscoa para tomar o remédio (Flagyl 250mg) para a Giardíase que contraí ao beber água contaminada do Rio Jordão
domingo, março 30, 2003
Concurso Público para Técnico Previdenciário do INSS;
Número de vagas para a 52ª Microrregião: 15;
Número de inscritos: Uns 7000;
Minha classificação: 5º...
E este crachá está com seus dias contados!!!!!!!!:
terça-feira, março 18, 2003
Meus irmãos circulam pelos corredores
Carregando pacotes, rancores, dívidas e chifres
Enquanto seus espíritos desenham corações nas paredes da fábrica.
As luzes me cansam a vista,
O ar-condicionado me esfria o sangue,
As engrenagens giram
E quase me hipnotizam.
Haveria um pouco de diversão no futebol inocente
Para esquecer os rumores de guerra.
Haveria se houvesse tempo.
Mas não há tempo -
Logo toca o sinal e o expediente termina.
E o nosso Destino jaz com a maquilagem borrada,
Como uma puta arrependida.
"- Trabalhem... ou vão para o olho da rua!" -
Antes do Fim, o chefe grita a ordem do dia.
As engrenagens giram
E quase me hipnotizam.
mas estou lúcido, imóvel
E escrevo versos porque a renúncia é mais assustadora que o fantasma do desemprego.
Perdão, meus irmãos!
Ser poeta é muito fácil;
Difícil é dignidade.
sábado, fevereiro 08, 2003
Eu vivo simplesmente. Se sinto vontade de cantar, canto; se sinto vontade de cagar, vou ao banheiro. Havia um tempo em que minha vontade gerava piruetas, tombos e sobressaltos; mas hoje... Hoje não há vontade alguma. E estes malditos quarenta graus à sombra tornam a vida rareifeita e irrespirável.
Talvez eu pare de escrever neste blog. Nada tem feito mesmo muito sentido. Para que escrever poesia? Olhe para o cair da noite: a poesia está lá. Olhe para aquele homem que dorme embaixo do viaduto: lá está ela também, embora um pouco camuflada. Poesia não é o que se escreve, é o que se vê. E, além do mais, palavra por palavra, Fernando Pessoa já disse tudo...
O que dizer? Deixou de ser gratificante brincar de escritor? Não, brincar sempre será bom. Mas, mesmo assim, eu vou embora. Viver um pouco, ou apodrecer um pouco. Acreditar que o mundo é bom e criar coragem para gerar um filho em minha musa, ou contrair uma doença incurável. Sobreviver em um emprego burocrático, ou morrer num acidente de automóvel - mesmo sem ter automóvel. Estar vivo é não ter certeza alguma...
É que eu sou um pouco triste e nem sei por quê...
Quem me dera ser como o velho português, que trabalha na construção da minha casa sem cobrar nada. Quem me dera ser como ele, pedreiro aposentado, feliz em manter-se ativo. Quem me dera ter seus olhos azuis, azuis como a mais bonita manhã de verão; azuis, e dentro deles se pode ver a alegria de muitos anos passados. Ao escrever esta frase estou emocionado e sinto uma imensa vontade de chorar, porque o velho português fala bonito e tem olhos azuis-alegria. Que este texto seja dedicado a Seu Carlos e que ele possa descansar em paz - trabalhando, feliz e muito vivo!...
quinta-feira, dezembro 19, 2002
Eu também dou boas gargalhadas.
Como todos, eu também luto, trabalho e vejo tv.
Também vou ao cinema e à funerais
E marco meu ponto eletronicamente em reuniões de família.
Eles não sabem
(Porque nada fica marcado no meu rosto sem expressão),
Mas já fiz amor em hotéis de última categoria
E maquilei a alma com o pó de substâncias ilícitas.
Mas e a Vida?...
Jamais soube o que fazer dela antes que a morte chegasse.
A Vida não tem sentido algum
E dói por isto -
E ainda por cima dói por isto!...
Eu também sou um cristão,
Mas o sou principalmente por pressão de Deus.
Como um louco direi a verdade:
Tudo o que faço
Faço-o para gozar um pouco menos a sensação de que estou vivendo.
Uma espécie de alheiamento de mim
E dos outros,
Principalmente dos outros.
Uma espécie de alheiamento da vida
Que só o amor materno soube compreender.
Uma necessidade fisiológica de estar sozinho,
Um silêncio soturno de quem não encontra igual entre os iguais,
Um buraco na alma,
Indesejado,
Como nos cabelos de um homem que começa a encalvecer.
Um buraco na alma
por onde escapa a alma da alma.
A alma, a cidade, o país, o Universo e Além
- Nenhum lugar onde se esconder.
Um tênue cordão de ouro,
Nenhuma nuvem no céu,
Sono
E saudades da caverna sombria e primordial onde nunca estarei...
terça-feira, dezembro 10, 2002
terça-feira, dezembro 03, 2002
Este é o momento. Estou anestesiado, no trabalho. Ainda existem algumas dores em minha alma, muitas dores, aliás, mas que já não incomodam tanto. O chão por onde piso tornou-se algodão; o ar é coloidal, as pessoas se movimentam lentamente, como paquidermes; a máquina-mãe está silenciosa porque já não possuo ouvidos, senão para piadas. Mas o excesso de luz branca ainda me incomoda os olhos.
O homem que nos observa do alto das paredes de vidro gostou de um truque que executei, equilibrando fúria, peste, demagogia e imãs na ponta do meu nariz de negro. Por isto resolveu me promover de Escravo-Aleijado II para Escravo Aleijado III, o que me rendeu Oitenta Reais e Dois Dedos Tortos de aumento salarial. “Continue assim “– disse ele – “nunca pense!... E tome uma cervejinha nos finais-de-semana!” E antes de voltar para seu covil, o senhor da matilha colou, com saliva, um adesivo na janela do mezanino de nossas almas:
“Não bata no vidro, nem alimente os funcionários.”
Nada aqui tem cheiro de humanidade. Despi-me do Espírito, guardei-o no armário e pus um uniforme azul apertado nos testículos. A dor nos culhões me obriga a manter movimento constante e a seguir, com meus companheiros autômatos, ricocheteando de parede em parede em direção a um futuro que não chega.
Mas o efeito do anestésico não dura para sempre. Eu sou um homem. E o meu ato de amor ao me esfregar na Vida é quase sexual. Eu sou um homem e mantenho meu uniforme imundo como forma de protesto. Eu sou um homem e gosto de usar um casaco esfarrapado que me dá um ar de dignidade. Eu sou um homem. Eu sou o Homem, porque sou único e tenho nos pulsos tatuada a foto da mais bela das mulheres, que é a minha preferida. Eu sou o Homem e estou feliz comigo mesmo porque obtive conceito A na primeira fase do Vestibular Estadual sem saber o número atômico de qualquer elemento químico. Eu sou o Homem e há cinco anos amei uma mulher cujo filho se chama Raylander. Eu sou o Homem e meu rosto se perde na multidão, porque foi feito à imagem e semelhança d’Aquele que serviu de modelo para todos. Eu sou o Homem porque admiro Caravaggio e estou lendo uma biografia de kurt Cobain. Eu sou o Homem porque considero a versão acústica de “Where Did You Sleep Last Night?” a mais triste e sincera interpretação de uma música em todos os tempos. Eu sou o Homem porque erro em busca da Sinceridade Absoluta, o Santo Graal. Eu sou o Homem porque fiquei completamente nulo quando amei minha musa pela primeira vez. Eu sou o Homem porque este parágrafo é como o tempo, não tem fim, mas eu posso interrompe-lo quando quiser pois sou o responsável por ele e por mim.
quinta-feira, novembro 28, 2002
Parabéns para mim,
E que nesta data querida a vida da mãe que chora comece a ser um pouco mais feliz.
Parabéns para mim,
E muitas felicidades ao quase-criminoso que segue agora em busca de uma nova vida.
Parabéns para mim,
E muitos anos de vida ao filho da adolescente que nunca conhecerá seu pai.
Parabéns para mim,
E pão para o menino que passa fome.
- Conceito A na Primeira Fase do vestibular da UERJ (e, Camila, continuo sem saber o n.º atômico de elemento algum).
- Nota 93,5 no Concurso para técnico Legislativo III da Câmara Municipal de São João de Meriti.
- Muitos textos escritos pela metade...
- Este blog só retornará ao seu funcionamento normal no dia 15/12/2002, após o segundo dia do Exame discursivo da Uerj
quarta-feira, outubro 23, 2002
Ela procura em mim algo que nunca serei e nunca tentei fingir ser; está se desencantando dentro da utopia de tentar me arrancar do interior da minha alma; e incorrendo no mesmo erro da minha amada de tempos atrás.
Não há nada tão triste quanto um amor triste... E promessas não podem salvá-la do medo do futuro. Pois existem promessas que, ainda que sinceras, nunca podem ser cumpridas...
Escondido, ao vê-la sorrir, vi que era igual a todas as outras...
Somos o que somos. Não existe mudança interior; nem esperança.
sábado, agosto 03, 2002
Um deputado – ou vereador, sei lá – chamado Capelli criou uma lei que obriga a UERJ a reservar 50% de suas vagas a candidatos que estudaram a vida inteira em colégio público. Até aí tudo bem: com certeza, uma pessoa que estudou no Colégio São Bento está muito melhor preparada que outra que estudou num CIEP. Mas que surpresa tive quando vi o edital! Descobri que, dos 50% das vagas reservadas aos pobres, 40% são reservadas aos negros e pardos – ou seja, uma colher de sopa de racismo dentro de uma lei anti-racista. Que diferença há entre um pobre preto e um pobre branco? Usando friamente a lógica para analisar esta cláusula do vestibular, o que poderia, se ambos tenham estudado na mesma escola pública, diferenciar um negro de um branco para que aquele tenha prioridade sobre este nas vagas? Os negros são inferiores intelectualmente? Pois, para mim, é o que esta lei atesta. E o que dizer então de mim, que sou preto, pobre, magro, feio e cabeçudo? E o que fazer por meu amigo Bebeto, que também é preto e pobre, mas não vai poder prestar vestibular porque cursou a 1ª e 2ª séries do ensino fundamental num colégio particular graças a uma bolsa de estudos? Lamentar... Apenas lamentar...
Enquanto isto, eu, que consegui pagar os R$26,00 da inscrição na prova dos brancos, vou prestar dois vestibulares para a mesma universidade, porque sou preto, pobre, magro, feio, cabeçudo, mas não sou bobo...
Racismo e pára-racismo. Como eu disse, é um país engraçado.
sábado, julho 06, 2002
É a festa da torcida campeã!" (Perfeição - Renato Russo)
02 de julho de 2002. Não fui ao trabalho hoje. O Presidente decretou ponto facultativo, porque o Brasil é penta. Penta campeão em acidentes de trânsito; penta campeão em assassinatos a tiros de fuzil americano; penta campeão em doenças venéreas; penta campeão em pedofilia... Mas hoje não é um dia propício para se falar disto, a não ser que eu queira me tornar o chato da festa.
Afinal de contas, os alienados são bem menos infelizes...
Estou tentando aproveitar o dia de folga para estudar para o vestibular. Mas não consigo me convencer de que preciso saber o número atômico do Potássio e do Einstênio para conseguir entrar para a faculdade de letras. Uma parte de mim ficou presa no tempo da foda casual e dos jogos eletrônicos. Aquilo significava estar vivo? Estou vivo agora? Não sei. Mas naquele tempo em que as garrafas de cerveja voavam por sobre nossas cabeças e o nosso sêmen escorria por coxas adolescentes quase desconhecidas, o vento varria o asfalto selvagem e espalhava as chamas do escritor que existia dentro da minha alma. Aquilo significava estar vivo? Não sei. Mas a verdade é que podíamos morrer a qualquer momento, o que é muito diferente desta morte em vida, deste lento desligar de máquinas que é não restar tempo para uma existência real. A chama? Apagada por um temporal que transformou o vento em cansaço muscular e debilidade psicológica.
Tenho plena consciência de mim agora, enquanto caminho pela Rua da Matriz. Sentado no muro do Cemitério Municipal, o fantasma de meu pai acena com um sorriso bêbado enquanto arma uma arapuca para mais um de seus incontáveis passarinhos. Na porta do Cemitério, meu tio que morreu louco executa cambalhotas e piruetas, com os olhos arregalados e uma roupa de bobo da corte, feliz da vida, ou melhor dizendo, feliz da morte. E lá dentro, no interior do cemitério de pessoas não-nascidas, meus avós, tios, primos e vizinhos, conhecidos ou não, brincam de roda e fazem a festa, zombando dos que ainda não sabem que nem sequer nasceram.
Não, eu não preciso saber o número atômico do Potássio ou do Einstênio. Não me adiantaria, nem traria salvação. Sou uma chama apagada. Sou o que não deveria ter sido. Por culpa minha, ou não, estou fracassando como artista e isto significa também fracassar como homem, com ser humano.
sábado, junho 22, 2002
Concurso para o Ministério Público do Rio de Janeiro.
Cargo: Secretário de Promotoria e Curadoria.
Número de vagas para o Sexto Centro Regional: 10.
Número de Inscritos: 2155.
Minha classificação: 13.º
Eu perco, mas com estilo...
terça-feira, junho 11, 2002
Fora de mim, o mapa da Europa é o mesmo de 1918, os paranormais estão em evidência, os populistas estão prestes a tomar o poder e o sapato de bico fino está na moda.
Dentro de mim, o meu coração é redondo, uma roda de cores sempre em branco movimento. E minha Razão-Memória novamente me dizendo que há mais desilusão e desesperança do que beleza em tudo quanto existe.
Como, desde sempre, estou dentro de um buraco. Como sempre estou cansado e não confio em ninguém. Ainda me chamo Murilo. Só as entradas em meu rosto estão cada vez maiores...
Exatamente na mesma noite do desaparecimento de Tim Lopes, Bruno, ex-estagiário da Casa da Moeda, cantou durante o culto igreja. Terminado o culto, levou a mãe e os irmãos em casa, apanhou o presente que havia comprado e saiu para entrega-lo a sua namorada em sua festa de aniversário. Mas errou o caminho, perdeu-se, e foi parar dentro de uma favela, em Santa Cruz. Os traficantes mandaram parar o carro, ele não parou. Levou três tiros. O pai o encontrou morto, dentro do carro...
De quantos Mil Reais é a recompensa por mais esses “Elias Malucos”? Não, não há recompensa. A vida humana não vale nada...
Parem de cinismo, centenas de Tins Lopes são assassinados todos os dias.
quinta-feira, maio 16, 2002
O ventilador, servindo de abajur no outono.
Sobre a cômoda, a tv novinha, desodorantes, caixas de remédios vazias, o video-cassete, e uma fita vhs pirata do acústico mtv do Nirvana.
Encostada à fresta da porta, uma cobra de pano estofada com areia – o ente sobrenatural que mantém meu sono a salvo do ataque das lacraias.
Janela aberta, com uma tela verde, improvisada. Os ônibus não estão passando na Avenida. Silêncio, sagrado como uma música de qualidade. Ar imóvel, horas paradas.
Para dar um toque humano à paisagem, Angela dorme, de bruços, com a bunda, cada vez maior, para cima. Ela é o que me une ao Tempo e à Vida...
domingo, maio 12, 2002
(Alice In Chains)
Bury me softly in this womb
I give this part of me for you
Sand rains down and here I sit
Holding rare flowers
In a tomb...in bloom
Down in a hole and I don't know if I can be saved
See my heart I decorate it like a grave
You don't understand who they
Thought I was supposed to be
Look at me now a man
Who won't let himself be
Down in a hole, losin' my soul
Down in a hole, losin' control
I'd like to fly,
But my wings have been so denied
Down in a hole and they've put all
The stones in their place
I've eaten the sun so my tongue
Has been burned of the taste
I have been guilty
Of kicking myself in the teeth
I will speak no more of my feelings beneath
Oh I want to be inside of you
Down in a hole, losin' my soul
Down in a hole, feelin' so small
Down in a hole, losin' my soul
Down in a hole, out of control
I'd like to fly
But my wings have been so denied
terça-feira, abril 30, 2002
Quando a conheci
Já era uma velha.
Velha e cega.
Nunca lhe dei a devida importância.
estive sempre por aí, ocupado demais
Amando mulheres ou tentando me matar.
Descanse em paz,
Que lhe sejam dados no Céu
A Luz e o Dourado
Que lhe foram negados em vida.
Dalila Maria da Conceição,
Minha avó.
quarta-feira, abril 24, 2002
O Sol cinza que penetra minha janela...
Quero escrever um poema sem frases invertidas.
Porque minha irmã está ardendo em febre,
Mas não tem dinheiro para remédios;
E por isso aguarda que seu corpo reaja naturalmente
A uma doença chamada Miséria.
Tenho ovos e leite em minha geladeira,
Mas o meu vizinho da marquise em frente
Assou um pombo ao molho de toxoplasmose
Que essa noite será o seu jantar deste mês.
O sol cinza que penetra minha janela
Não ilumina a escuridão dos olhos da menina que viu o pai crivado de balas
À tarde, dentro de um botequim.
Versos são como sorrisos...
É verdade que eu gostaria de ter um sorriso maior no meu rosto,
Como o da atriz do cinema americano;
Um sorriso maior, que tornasse maior
O sorriso da minha musa.
Mas esse poema não é para Ela,
Nem é para os meus amigos.
Eu tinha um amigo chamado José
- ele morreu de aids;
Eu tinha um amigo chamado João
- Ele foi assassinado;
Eu tinha um amigo chamado Paulo
- Seu coração explodiu durante uma overdose.
O sol cinza que penetra minha janela
Reflete num espelho meus cabelos que estão embranquecendo
E me faz desejar estar ficando um pouco mais sábio
Para que sobreviver tenha valido a pena.
sábado, abril 06, 2002
Os sonhos que fui,
A completa ausência de sonhos que sou -
Esta noite
Convivas da mesma festa estúpida...
quinta-feira, abril 04, 2002
quinta-feira, março 28, 2002
Quando ela dorme,
Com os seios nus,
Extasiada,
É como se eu fosse o maior amante do mundo...
Quando ela vai às compras
E me trás peras
É como se eu tivesse duas mães...
quarta-feira, março 20, 2002
Ninguém me conhece.
Até os que me conhecem
E que me abraçam e falam comigo diariamente
Não me conhecem,
Não me conhecem mesmo quando tentam me desconhecer.
O meu soriso falso e eu,
Desde sempre, o palhaço da turma
Procurando minha alegria perdida por entre os anos.
Não, eu não sou o que aparece na foto,
Sou o que está codificado nas entrelinhas,
Quase camuflado nas sombras.
Não tenho respeito por nada,
Não tenho pena de ninguém
E não tenho a menor paciência para festas em família.
Dentro de mim nem há família...
Preocupados com a decadência do meu corpo feio?
Pois eu quero outra alma para deixar de ser eu.
Vejo a vida como vários sonhos intercalados brotando de uma greta sexual que perdeu a elasticidade.
Vocês que me abraçam e falam comigo,
Saibam que atravesso meus dias equilibrando-me sobre o Abismo
Num silencioso desespero...
sábado, março 09, 2002
Banque o bom cidadão estúpido e perca seu sábado fazendo o que o Governo deveria fazer...
terça-feira, março 05, 2002
Mas pulando de galho sempre na mesma árvore.
Uma nova árvore,
Um novo caminho,
E ao menos o tombo seria diferente...
segunda-feira, março 04, 2002
(Hamlet - Willian Shakespeare)
Está feito o que não está feito.
(Às vezes a melhor coisa a fazer é seguir conselhos.
Por isto agradeço à distante estrela que mais brilha...)
sábado, março 02, 2002
E o que podia fazer de mim não o fiz."
(Álvaro de Campos - Tabacaria)
Sou um cara que acredita na arte como forma de vida. Acredito que o veradeiro artista é aquele que não consegue se desvencilhar de sua arte em nenhum momento da vida; para ele, Vida e Arte são a mesma coisa, ficando para segundo plano o dinheiro, a comida, a política, os amigos, tudo.
E foi pensando assim que me transubstanciei no mais novo vendedor de cds piratas, ou melhor, "personalizados" do pedaço. Faço cds completos, coletâneas, conversões de vinil para cd - tudo a preços módicos. Em uma semana, consegui quarenta encomendas. Por isto, fiéis leitores da minha arte, não esperem posts freqüentes a partir de hoje...
quarta-feira, fevereiro 27, 2002
Às vezes sinto-me refém da minha própria vida.
E Ela nunca vai compreender que a minha natureza
É mais triste que alegre...
terça-feira, fevereiro 26, 2002
- Vou cantar uma música pra vocês...
Todos esperaram o neguinho cantar um funk qualquer. Mas o menino começou a cantar uma ópera com uma voz de melhor tenor do mundo. Ao final da apresentação, todos aplaudiram e o delegado perguntou:
- Moleque, você conhece a escola de música Villa Lobos?
Ao que moleque respondeu:
- Conheço, já fui lá!...
- E aí?
- A professora de música disse pra mim: "Preto tem que cantar samba."
O delegado ficou puto da vida. É foda...
Adúlteros, racistas, fanáticos religiosos, alcoólatras, viciados, esquizofrênicos, oligofrênicos, agiotas, idiotas, desesperados, corruptos, ninfomaníacas e até gente normal. todos os tipos de pessoas. Uma miniatura do Mundo. Ah, que alegria voltar para cá!...
domingo, fevereiro 24, 2002
Raimundo é um típico freguês de prostitutas. Um nordestino de meia-idade, aposentado por invalidez e sozinho na vida. Deixou a cidade-natal e veio para o Rio, logo após perder toda a família – essa é uma história que ninguém sabe contar direito, e mesmo eu sei dela apenas fragmentos. É um homem magro, de rosto enrugado e sempre sorridente, que sobrevive de, além da ínfima pensão do governo, pequenos serviços domésticos que faz para os vizinhos. É um homem fechado, alheio à festas ou qualquer outra coisa que reúna mais de três pessoas, quase autista, e por isso os vizinhos o tratam com pena, achando que ele, se não é maluco, sofre de alguma espécie de idiotia. Na verdade Raimundo nada tem de idiota. É um ser humano estranho, sim – notívago, dorme três horas por noite, no máximo; a maior parte da madrugada passa no portão de casa, meio na penumbra, e por isso sabe de tudo, dos tiros, quem deu os tiros, quem levou os tiros, quem estava no carro negro, quem traiu a esposa, quem traiu o marido, quem chegou bêbado e carregado; e tudo isso sem que ninguém perceba sua presença. Acho que ele se diverte assim. Pode ser maluco, excêntrico, mas de idiota não tem nada. É um voraz consumidor de prostitutas – “Já comi bucetas de todos os estados do Brasil”, gaba-se. Todos os finais de semana ele parte, farejando-as como um vira-latas no cio. Agora, vive me falando de uma que faz ponto aqui perto, na Praça da Matriz, “uma putinha maluca”, diz com seu sorriso de látex, “uma putinha apertada e maluca! Catorze anos... Você precisa conhece-la!” Talvez eu precise mesmo. Em breve ele me levará até ela.
...
Precisei insistir muito para que Raimundo me levasse até a sua putinha. O Paraíba não queria me levar de jeito nenhum. Michel, outro que a conhece, dissera-me que ela é linda, “nem parece uma piranha”. Pensei que, se ela fosse realmente tão sedutora, Raimundo então pudesse estar fissurado por ela. O sujeito é cinqüentão, feio e largado no mundo, sem raízes e muito esquisito; poderia muito bem ter desenvolvido uma obsessão paranóica pela puta. Foi então que acendeu a lâmpada do meu instinto de sobrevivência: comecei a imagina-lo tendo um surto psicótico e estraçalhando meu crânio com um paralelepípedo, dentro de um quarto de hotel vagabundo. As imagens dentro da minha cabeça eram extremamente reais, aquele sétimo sentido que só as mães possuem com relação aos filhos. Eu tremi. Tremia enquanto comunicava a Raimundo minha desistência do programa...
Meia-hora depois, Raimundo berrava meu nome do portão. Estava histriônica e momescamente vestido – um par de sapatos cuidadosamente engraxados, uma calça de tergal cáqui e um blusão xadrez de quinze anos atrás; e estava até de banho tomado, coisa que só faz, principalmente no inverno, em ocasiões muito especiais. Mordi o lábio para não gargalhar. Ele viera para levar-me à pequena grande puta. Olhei nos olhos dele e senti o peso do paralelepípedo sobre meu crânio. “Não to afim”, tentei resistir. Mas agora era uma questão de honra para ele – não aceitaria um não como resposta. Após dez minutos cedi; afinal já fazia um tempo relativamente grande desde a minha última foda, eu estava quase tendo uma crise de abstinência e bastou ele me lembrar que a tal tinha catorze anos para que o paralelepípedo virasse farelo.
Fomos a pé até a praça. No caminho ele repetia “que gostosa”, “que buceta”, que isso e que aquilo, uma ladainha desgraçada que conseguia ao mesmo tempo me irritar e excitar. Chegando lá, o ambiente era estagnado. Aposentados nos bares cheios de poeira e, encostadas em postes ou bancas de jornal, putas velhas e gordas com maquilagem exagerada e dentes podres. Cobras horríveis, cascavéis sacudindo seus chocalhos, prontas a dar-me botes venenosos. Havia até um camburão com quatro policiais dentro, garantindo a ordem pública. O murmurar de todas aquelas vozes chegava aos meus ouvidos e ecoava no meu cérebro como uma telepatia coletiva. Não a encontramos, paramos num botequim e Raimundo pediu uma dose de cachaça, depois outra...
Eu já estava a ponto de desistir quando Raimundo, de cara cheia e com o hálito insuportável, me disse que o caviar estava chegando. Caminhava lentamente em nossa direção, séria, mas sem intenção de disfarçar seu rebolado natural. Como o Paraíba já era freguês, ela apresentou-se a mim. Chamava-se Ada (o nome fizera-me lembrar de uma menina loira, da minha infância) e tinha uma enorme cabeleira meio ruiva, era alta para catorze anos, uma micro-saia vermelha destacava o traseiro e apenas uma blusa de tecido semitransparente cobria-lhe os pequenos e rijíssimos seios, tinha olhos claros e puxados, cara de criança e um inacreditável ar de inexperiente, de virgem... tinham razão, era sedutora, realmente sedutora. Raimundo não me deixou iniciar uma conversa, foi direto ao assunto. Ela me disse que o valor tabelado era Quinze Reais, fora o hotel, por uma foda simples sem direito à chupada ou anal – é claro, não haveria problema pelo fato de estarmos em dupla. Quando sugeri o hotel, Raimundo me olhou com espanto, como se eu fosse o maior idiota. “Que hotel porra nenhuma, vamos na linha do trem!”, disse o homem mais avarento que conheci.
Assim que atravessamos o buraco no muro da linha férrea, passou por nós uma cascavel de dentes podres, acompanhada por um freguês que gargalhava enquanto fechava o zíper da calça. Raimundo seria o primeiro, pois mal podia se conter. Grilos, ratazanas e pernilongos, além de outras cascáveis e clientes compunham a fauna daquele inusitado ecossistema. O brotinho encostou-se no muro, desabotoou a saia e abriu ligeiramente as pernas. Raimundo, ofegante, pôs para fora um membro grande e começou a enfiar nela. O infeliz estava completamente bêbado, o que fazia com que a expressão colada em sua cara parecesse ainda mais idiota. Ele arfava e chiava como uma bóia furada, cada vez enfiando com mais força; ela não sentia coisa alguma, nem dor, absolutamente nada, fitava-me com um olhar tão distante que eu a imaginava no colo da avó, chupando um pirulito ou comendo uma fatia de torta. Ora diabos! O que se desenrolava à minha frente era um autêntico crime contra a humanidade. Onde estariam os Órgãos de Defesa do Adolescente quando se precisava deles? (na certa censurando algum programa de tv). Aquele lugar, aquela cena, aquela criança sendo espremida contra o muro por aquele bêbado repugnante... normal, tudo normalíssimo na noite do subúrbio. A humanidade morreu, afogou-se no sumidouro da sua própria merda pegajosa e o resultado de toda cópula é um sapo.
Raimundo finalmente descolou-se de Ada. Virou-se em minha direção, balançando o pau, e disse “vai lá, garoto!”; depois sentou-se no mato, desfalecido. Eu, odiando-o, tinha vontade de espatifar sua cara mole. Pedi-lhe que me deixasse à sós com ela, e o homem, cambaleando, atravessou o buraco no muro, sumindo. “Anda logo, cara!”, gritou Ada. Tentei dialogar, explicar-lhe que talvez ainda houvesse tempo de largar a vida, mas ela já adquirira um coração de puta, um pequeno, seco e prático coração de puta.
“- Eu sabia, desde o primeiro momento em que olhei pra sua cara, que você era viado ou broxa!”, disse-me , com os olhos brilhando de ódio.
Era impossível. Uma puta é uma puta, mesmo que tenha catorze anos. Dei-lhe as costas e fui-me embora, mas ela me seguia, furiosa. “Merda!”, eu disse, “se é por causa dos Quinze Reais, aqui estão, compre um bom pó com eles!”, e joguei o dinheiro na calçada. Ela o apanhou e deixou de seguir-me, mas gritava de longe: “Broxa! Broxa, filho da puta!”...
terça-feira, fevereiro 19, 2002
O dia inteiro ando de um lado para outro sem saber o que fazer. Não tenho para onde ir, não tenho dinheiro e minhas bucetas que falam pelos cotovelos estão todas sendo penetradas por outro; há algum macho belo e potente ateando fogo nelas, e quando se cansarem e voltarem para mim estarão todas carbonizadas, no mínimo. Estou bem próximo da loucura suprema. Minha vida está miserável, e por isto eu vou cantar para você. E vou cantar com a boca imunda e a voz do pior tenor; mas vou cantar depois, antes vou soltar um grito que vai estilhaçar toda a louça da sua casa suburbana, um grito que fará os cães latirem e os gatos pararem de trepar. Porque você foi a única que durante algum tempo teve a delicadeza de ouvir meu canto podre e por isso vai ter de arcar com as conseqüências. Você, com seu uniforme de trabalho, cuidadosamente maquilada e perfumada, com os cabelos brilhando e um sorriso novo; pois o meu canto vai ser um pontapé no seu trazeirinho de moça comportada dos anos noventa, pois o meu canto vai deixar queimaduras em seus seios, pois o meu canto vai arrancar seus olhos e eu farei com eles a Dança da Chuva...
Eles me olham nos olhos. Que será que vêem? Não sei mas, seja o que for, não é o motivo pelo qual escrevo.
Domingo de sol e poluição. Rosa volta para casa de mãos dadas com seu futuro marido. Desde aquela noite estranha, quando eu lhe disse o nome dela e aquele sorriso o traiu, desde aquela noite eu sabia que ela fatalmente seria dele. Dele, o rapaz correto que jamais tem uma ereção no carnaval, ou , se a tem, imediatamente recheia as calças de linho com cubos de gelo e pede perdão a Deus; dele, o obreiro mais preocupado em salvar almas do que em fazer sexo, que nunca vai tentar beijar-lhe os seios antes do casamento; dele, que sonha fazer tudo isso, mas se auto-policia e por isso é agora o seu bom-moço. Daqui a um mês você estará noiva dele, e um mês depois vocês se casarão; depois, amor num aconchegante hotel da Região dos Lagos e uma vida pacata e feliz por toda a eternidade na Nova Jerusalém. Pois antes dessa sua eternidade eu queria somente cinqüenta horas de sexo com você. Eu sou dez vezes melhor que o seu bom-moço, porque por maior que seja o amor dele, nunca se comparará ao meu. Somente cinqüenta horas... e eu lhe possuiria com tamanha entrega que você pensaria em mim todas as vezes que estivesse sob o ventre dele, como papai-e-mamãe, por toda a eternidade. Mas eu não terei minhas horas, não terei sequer um minuto e você será dele, fatalmente dele, e nunca vai saber o quanto eu poderia ter sido bom, ou ruim.
E eu, que há três anos canto exclusivamente para você, já não tenho para quem cantar, porque quase lhe odeio. Agora eu canto para o meu umbigo, ou para o meu nariz, ou para minha barba por fazer, ou para o meu pau que deveria ser seu, mas é de um monte de outras...
segunda-feira, fevereiro 18, 2002
"A mulatto, an albino, a mosquito, my libido, yeah!"
domingo, fevereiro 17, 2002
É preciso comer - a comida não tem gosto...
É preciso fazer sexo - não há parceira...
É preciso fazer amor - não há Amor...
É preciso andar aos tombos - não há pedras no caminho...
É preciso lavar a alma - não há água-benta...
É preciso soltar o espírito - há pobreza de espírito...
É preciso confessar-se - o padre foi preso...
É preciso matar-se - não há vida...
É preciso amar ao próximo - não há ninguém por perto...
É preciso morrer numa guerra - não há inimigo...
É preciso evitar o vício - não há virtude...
É preciso descer ao Inferno - não há barca...
É preciso ser um nefelibata - sopraram as nuvens...
É preciso dar cabo dos loucos - os manicômios ruíram...
É preciso imolar uma virgem - a última virgem está grávida...
É preciso prever o futuro - não há Amanhã...
(Após o advento do Ano Dois Mil,
O templo do poeta ruiu, de velho...)
Tão jovem, tão menino
E talvez eu morra amanhã -
Talvez um acidente,
Talvez uma bala perdida,
Ou talvez simplesmente a complicação desta febre.
Talvez morra um dos que me amam,
Talvez morram todos os que me amam,
Talvez um rei, um presidente, a apresentadora do telejornal...
Talvez um cataclisma,
Talvez um gigantesco meteoro,
Talvez a vontade de Deus,
E o Planeta tão jovem, tão menino
Morra amanhã...
E ficarão as estrelas
Brilhando por sonhos que não foram realizados.
quinta-feira, fevereiro 14, 2002
Temperatura do corpo: 39.6 ºC.
Pressão arterial: 8/5.
Dez dias de licença médica...
Estou com dengue,
Virei estatística...
quarta-feira, fevereiro 06, 2002
quarta-feira, janeiro 30, 2002
"- Moço, compra um Cepacol pra mim!..."
Para que ela queria um cepacol?
sábado, janeiro 26, 2002
Pelos direitos da Fé...
Enquanto isso os umbandistas
Continuam tocando atabaques,
Os budistas fazendo ioga,
Os muçulmanos fazendo a Guerra Santa,
Os judaístas acendendo velas nas noites de Sabá...
E nós, os cépticos, continuamos
Fazendo amor.
O Céu que venha se tiver que vir,
Ou não venha...
Não pensar é agonia.
Mas eu quero tanto e tão ao mesmo tempo
Que tudo acaba sempre se tornando um enorme novelo
Que não cabe em meus pensamentos.
Eu quero fazer um filme, escrever um livro,
Pintar um quadro, ser um atleta, tornar-me um ídolo;
Mas quero ao mesmo tempo ser um criminoso histórico,
Assaltar um banco, fazer reféns, balear pessoas
E fugir, e ser perseguido pela polícia, e conseguir escapar
Estapafurdiamente rico.
E quero reunir todos os meus amigos num churrasco de confraternização;
Mas eu não como carne, e quero ao mesmo tempo abandonar família e amigos
E ir fazer não sei que num lugar distante e absurdo como o Uzbequistão ou o Tibet.
E quero que a Vida seja risco e música e surpresa;
Mas ao mesmo tempo quero segurança, previsão e silêncio.
Silêncio...
E quero ser lindo, inteligente, rico e admirado para ter todas as mulheres
Fáceis e difíceis;
Mas quero ao mesmo tempo viver com Ela numa casa comum
E ser trivialmente feliz para sempre.
Eu quero tudo,
Ou simplesmente deitar numa cama aquecida
E dormir...
sexta-feira, janeiro 25, 2002
O lugar é feio; tem fumaça demais, poeira demais, vômito demais, cocô de cachorro demais. Mas existem ainda pessoas boas e que valem alguma coisa. Angela ficou sem o pão-doce, mas eu dei uma boa caminhada enquanto observava a bela paisagem - a paisagem humana!
quinta-feira, janeiro 24, 2002
terça-feira, janeiro 22, 2002
Uma equipe de filmagem invadiu a Casa da Moeda do Brasil. Isto sempre acontece em época de lançamento de novas cédulas, mas desta vez eu percebi logo de início que se tratava de algo diferente. Câmeras grandes, de cinema; três caminhões enormes com equipamentos; guarda-roupa; e um diretor de cabelos desgrenhados, com cara de maestro-maluco.
Como eu suspeitava, não se tratava de uma filmagem trivial. Era para a propaganda política do PSDB, provavelmente para o José Serra. As belas atrizes da equipe, devidamente maquiladas, vestiram o uniforme azul-tendinite e tomaram o lugar das peoas verdadeiras, porque estas não representam bem a empresa, o Brasil no vídeo, uma vez que são negras e gordas. Uma bandeira do Brasil, de três metros de comprimento, é estendida na parede da seção, para dar um ar patriótico. O maestro-maluco manda o feitor tirar os peões de perto – o cheiro deles atrapalha sua criatividade:
“- Gravando!”
Com a bandeira nacional ao fundo, uma criatura híbrida, misto de verdade e mentira trabalha. A mão habilidosa da peoa, com luvas para esconder a pele preta, manuseia uma resma de estampas de Cinqüenta Reais enquanto o rosto ariano e sorridente da atriz olha para a câmera e diz:
“- É aqui que o Brasil vai pra frente!”
Pronto, acabou. A bandeira é retirada da parede, as luzes especiais são apagadas e a equipe bate em retirada... E o chicote volta a estalar no lombo gordo da trabalhadora real. Não, senhor FHC, não é aqui que o Brasil vai para frente. Pergunte a qualquer operário, todos sabem que aqui o país foi pro buraco, principalmente na administração do Senhor Tarcísio Jorge, irmão do seu amigo Eduardo Jorge – lembra?
A violência está fora de controle, definitivamente. A “segurança pública” é um animal extinto. Por enquanto, aqui no Rio, a guerra é apenas do Comando Vermelho contra o Terceiro Comando; mas, daqui a cem anos, cada quarteirão ou bairro estará organizado num clã, como na Europa pré-medieval, e fará sua própria segurança...
quarta-feira, janeiro 16, 2002
...
"Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser..." (Fernando Pessoa)
No centro da Vida,
Sob a lona de céu azul
Jogamos para o ar e pegamos sorrisos e lágrimas
- Sorrisos e lágrimas.
E jogamos também dinheiro
- Dinheiro sorrisos e lágrimas...
E jogamos também trabalho
- Trabalho, dinheiro, sorrisos e lágrimas...
E jogamos também sonhos
- Sonhos, trabalho, dinheiro, sorrisos e lágrimas...
E jogamos também ilusões
- Ilusões, sonhos, trabalho, dinheiro, sorrisos e lágrimas...
E jogamos também amores
- Amores, ilusões, sonhos, trabalho, dinheiro, sorrisos e lágrimas...
E jogamos também amigos
- Amigos, amores, ilusões, sonhos, trabalho, dinheiro, sorrisos e lágrimas...
Por fim jogamos lembranças, felizes por ainda conseguirmos manter o equilíbrio
- Lembranças, amigos, amores, ilusões, sonhos, trabalho, dinheiro, sorrisos e lágrimas...
Até que a Morte derrube tudo e ponha fim ao espetáculo.
domingo, janeiro 06, 2002
Perdi o controle sobre tudo.
Estou entregue nas mãos de uma força superior que não sei o que seja.
Sou um boneco, um peão na partida de xadrez entre o Destino e o Caos.
Há exércitos lutando por mim,
Enquanto espero,
Enquanto não posso fazer nada,
Enquanto só espero...
Celso tinha vinte e dois anos.
Quando era menino
Nós o ignorávamos por ser o mais novo, o mais bobo, o mais fraco.
Mais tarde ficou forte, pesado
E aquele adolescente de boné e socos certeiros passou a ser o nosso alicerce,
Um pilar inquebrável nos embates contra o inimigo,
O inimigo que preenchia de emoção e correria o vácuo das nossas noite de sábado.
Com o passar do tempo,
Pelo mesmo motivo que todos nós,
Celso começou a cheirar.
Cheirava a suor,
Cheirava à miséria,
Cheirava à desesperança,
Cheirava a pó e a uma falsa alegria.
Na véspera de Ano Novo,
Cheirou tanto que seu grande coração explodiu
E o anjo branco da Morte veio lhe dar boas vindas.
Uma tragédia.
Celso tinha vinte e dois anos.
""Happy Birthday"
Podes comemorar, Murilo.
Comemora!
No bolo de aniversário da Vida
Tu representas as vinte e duas velas que foram
Apagadas;
És o pavio de uma chama apagada pelo vento -
Inútil, sobrevivente a ti-mesmo.
Comemora!
Comemora, coitado de ti!
Comemora, coitado de ti que nunca comeste o bolo!
O bolo de aniversário da Vida...
domingo, dezembro 30, 2001
Que no ano que vem o vinho não se transforme em sangue.
Que no ano que vem haja mais rodopios e menos colisões.
Que no ano que vem alguma canção alente nossas almas.
Que no ano que vem a solidão encontre parceiro.
Que não haja tanta dor,
Que a Dor Inevitável possa ser compreendida.
Que no ano que vem haja menos mulheres casadas e fatais.
Que no ano que vem a vida não seja um filme pornográfico de longa duração.
Que o sexo seja Amor e não Cocaína.
Que um dirigível anuncie que a humanidade está salva.
Que as mulheres-paisagens-desoladas encontrem seus segundos corações.
Que a vida seja cores vivas e doces sabores.
Que no ano que vem o sorriso moreno de Angela não seja uma teia inconsciente.
Que eu não precise continuar sendo um ilusionista.
Que Marli não tenha motivos para chorar.
Que Georgina continue a mesma e eu consiga descobrir se ela é feliz ou triste.
Que no ano que vem eu consiga distingüir entre o que é certo e o que é errado,
Mesmo que seja para escolher o que é errado.
Que no ano que vem haja mais movimento.
Que a esperança deixe de ser um jazigo tão apertado.
Que a sorte não seja vista por um espelho.
Que cada demônio interior seja aprisionado ou exorcisado.
Que os grandes olhos dela voltem a olhar em minha direção...
Isto não é um poema. É um desejo.
sábado, dezembro 29, 2001
Estou triste esta noite. Estou triste porque me sinto único. Mas os anos passarão e eu não me lembrarei de nada desta noite, de nada a não ser delas - as lacraias...
segunda-feira, dezembro 24, 2001
Zero hora do dia 25 de dezembro,
O Menino Jesus acaba de nascer
E as duas estão nervosas preparando uma ceia que quase ninguém comerá.
Não há música, nem dança, nem Alegria verdadeira;
Não há alvoroço, nem alguém bêbado.
Não há alegria.
Sentados à mesma mesa,
Um infinito de distância nos separa
E nos perguntamos onde ficou um tesouro que perdemos com o passar dos anos –
Alegria...
O Menino Jesus acaba de nascer.
A Humanidade é minha irmã,
Mas o Amor, que nunca foi e talvez nunca será feliz, dorme
No chão de um quarto de morro.
Noite de paz, noite feliz...
Sou um jovem do subúrbio.
Minha juventude
- Época da coragem que não tenho –
Não durará para sempre;
Minha vida está cantando fora do compasso.
Sou um cristão,
Ensinaram-me a trocar a Alegria pela Vida Eterna;
Aprendi, mas é grande demais a energia contida dentro de mim
E minha falsa-tristeza sobrevive da alegria dos que não são meus.
Nasceu o Menino Jesus.
Olhamos dentro de nós mesmos,
Sentindo remorso por desejar que tudo fosse diferente e colorido de fogos-de-artifício.
Amanhã será um dia banal.
Ninguém provou da ceia...
Alegria.
domingo, dezembro 23, 2001
É isto apenas...
Apenas isto mesmo.
Não tenho como ser mais do que isto.
Estou quieto
Enquanto ouço passos apressados no corredor ao lado.
Na tv, a modelo linda me diz que sou feio, sujo e canifraz
E não sou mais uma criança.
Agora sou o anti-palhaço,
Pobre e débil assassino de esperanças
E não tenho como ser mais do que isto.
Merry Christmas e o que mais?
]Preciso aprender um pouco mais de inglês
E me preocupar com as crianças com câncer,
Porque os reis magos não alimentam aqueles que têm fome -
Infelizmente não tenho como ser mais do que isto.
Se o meu coração estivesse dormindo
Talvez a Estrela de Belém iluminasse um sorriso bonito em meu rosto.
Mas a escuridão da cidade assustou o Espiríto de Natal
E Jesus, o amigo oculto, esqueceu o presente da maioria.
A Ceia:
Deus está Lá,
Altíssimo,
Mas minha alma não eterna.
"Rio, 10/04/2000. 20:30 horas.
Zanza, como você já descobriu, o meu problema é gravidez, mas vou contar desde o início.
Sexta-feira (24/03/2000) eu já estava bastante desconfiada, aí eu liguei pro Jefferson e ele disse que era pra eu ficar calma que agente ia resolver, ele iria me dar dinheiro pra eu fazer o teste e se desse positivo ele disse que era pra eu resolver se ia ter ou não, e qualquer que fosse a minha decisão ele "assinaria embaixo".
Aí dia 26/03 (domingo) a menstruação veio (foi até no dia que você foi no ensaio comigo), eu fiquei aliviada e contei pra ele, mas ele disse que achava melhor eu fazer o teste assim mesmo, só pra livrar a mente de qualquer preocupação, e eu concordei. Só que ele não tinha dinheiro (e nem eu) só iria receber no dia 03/04, então na terça-feira (04/04) ele foi lá no Fluzinho me dar o dinheiro. No dia seguinte de manhã eu fui no laboratório e tirei sangue, o exame ficaria pronto no mesmo dia mas eu ia passar a tarde com a minha mãe em São João e então não daria. Falei pra ele que iria pegar o resultado na quinta-feira antes de ir pro curso, mas acabou que eu dormi na quinta de tarde, e saí atrasada, fui direto pro curso, ele ficou me ligando mas eu não podia atender porque estava em aula. Aí ele foi pro Fluzinho, só que o laboratório fecha às 16:30, justamente no início da aula, aí não tinha mais jeito. Agente ficou conversando, chorando, tentando acreditar e torcendo pro resultado ser negativo.
Na sexta-feira (07/04) ele não foi trabalhar pra ir no laboratório comigo, eu fui na casa dele e ficamos conversando até dar a hora de ir lá. Quando a gente chegou lá, eu peguei o resultado, abri, mas não entendi (ou não quis entender), então eu perguntei pra menina lá e ela foi ver com a médica e voltou dizendo sorridente que era positivo. Eu não acreditei, me deu vontade de dar um soco na cara dela porque ela disse rindo.
Aí o Jefferson me puxou, agente desceu a escada, quando eu ia atravessar a rua veio um carro, me deu vontade de parar e deixar ele me estraçalhar, mas o Jefferson me puxou e por pouco o carro não me pega, eu não tava conseguindo acreditar, eu não sabia o que fazer. Quando a gente chegou aqui em casa, eu comecei a chorar, mas chorar muito de soluçar, ele chorando comigo, aí eu comecei a sentir uma dor"
O resto da carta jamais encontrarei. Como terminou a história? Ela teve o bebê? Ou abortou? A família aceitou? Jefferson assumiu a criança, ou sumiu? Para mim a criança veio ao mundo, uma linda meninha, que aos quinze anos ficará gravida e desesperada. A vida é um círculo...
terça-feira, dezembro 18, 2001
Não tenho sonho algum. Não quero ser rico, não quero ser um artista, não quero ser reconhecido. Não quero ser – eu sou! Pouco importa se meu trabalho esteja me aleijando; pouco importa se não tenho uma casa para morar – eu sou! Acabo de fazer um sexo alucinante com a mulher que amo e me ama devotadamente. Estou nu, escrevendo estas palavras numa folha de caderno apoiada na bunda nua de Angela. O céu cinza da tarde de verão entra pela janela do meu quarto; no rádio, a Legião canta a história de nossas vidas. Não, não tenho sonhos. Sou um homem vivendo a Realidade. Não, meu Deus, eu não quero ser feliz – eu sou!
Mas a beleza inocente de Andreza não podia passar despercebida. O gás carbônico expelido por suas narinas provocava ereções em todos os peões da Fábrica. Um a um iam tentando inutilmente seduzi-la. Até que entrou em cena Álvaro. Moreno, alto, bonito, inteligente, chefe de seção, sapato engraxado, blusão por dentro da calça, bom papo – o sujeito, embora não valesse um centavo, era o sonho de qualquer mulher, solteira ou casada, da Fábrica. Sua lista de vítimas era incontável. Apesar disso, seu charme, a princípio,não foi tão eficaz com Andreza – o que só serviu para excitá-lo ainda mais. E todos os dias, durante meses, ele a perseguiu; Até que, numa suíte de luxo de um motel da Avenida Brasil, atingiu seu objetivo.
Alguma coisa mudou na ordem do universo naquela noite em que Andreza voltou para casa com o útero transbordante de esperma alheio, deitou-se no peito do marido e dormiu profundamente. A Terra deteu-se por um segundo em sua órbita e o mar ficou liso como vidro.
Como era de se esperar, Álvaro logo se cansou dela. Durante alguns dias era possível surpreendê-la chorando pelos cantos. Pouco tempo depois, apaixonou-se por um estagiário de dezoito anos. Quando este a deixou, começou a ser fodida por outro, depois por outro, e por outro, e por outro.
Agora, quatro anos depois, os cabelos negros e compridos continuam quase até a bunda, mas Andreza está uns oito quilos acima do peso e com uma protuberante barriga de operária. Ninguém mais se excita com a sua presença; e os sorrisos são raros em seu rosto com os olhos fundos e olheiras roxas, como a maquilagem borrada de uma puta arrependida.
Sim, por tudo quanto é sagrado no mundo, eu repito: Andreza era inocente. Mas a vida raramente perdoa a inocência...
sábado, dezembro 15, 2001
segunda-feira, dezembro 10, 2001
Hoje, ao acordar, inventei uma nova doença para minha mãe e descaradamente faltei ao trabalho. “Poxa, mas você vai faltar ao serviço só porque sua mãe está morrendo? Não pensa na Empresa?”, é o que me diz a voz de rato do outro lado do telefone. Não chefe, eu não penso na Empresa; quero mais é que Ela se foda e vá à falência; minhas juntas mecânicas estão avariadas e por isto você terá um robô a menos para operar sua preciosa máquina.
Pronto, agora o dia é meu! Posso alimentar os famintos, assaltar um banco, iniciar uma nova seita, violentar uma freira. Não, começarei com algo mais simples. Vou até a geladeira e apanho um sanduíche de sardinha. Como-o, sem beber nada. Agora estou alimentado pelo resto do dia.
Estou nu, de bruços na cama, quando começo a escrever este texto. O ventilador refresca o quarto, as lacraias e as baratas estão respeitando o cessar-fogo que assinamos. As cortinas estão fechadas – desde que me tornei uma toupeira a luz do sol pode cegar-me. O barulho dos veículos na avenida parece Carmina Burana. Mas por onde começarei afinal? Toca o telefone. É minha mulher querendo saber se preparei meu almoço. Digo a ela que sim, minto. Não tenho tempo a perder, estou com muita pressa, desesperado. Este é o meu dia e eu o estou matando, de inanição...
domingo, dezembro 09, 2001
Com o suor do seu rosto..."
- Mas não há maior desgosto
Nem há maior vilania!
(MARIO DE SÁ-CARNEIRO)
Não quero acordar,
Não quero trabalhar,
Não quero ser eu.
Não quero ter casa,
Não quero ter dinheiro,
Não quero ter amigos,
Não quero ter obrigações.
Não quero ser nem ter.
Sinceramente,
Desejo um suave esquecimento...
sábado, dezembro 08, 2001
Uma hora depois, às 20h 45min, chego ao centro de São João e corro para conseguir chegar a tempo de pegar o ônibus que já vai saindo. Chego a tempo. Entro no coletivo lotado de trabalhadores, estudantes, velhos e deficientes físicos. O cobrador tem um olhar vermelho de quem trabalhou o dia inteiro, como eu. Como se não bastassem os quarenta e tantos graus de calor humano, um homem carrega, no meio do inferno, uma enorme caixa de isopor.
Chego ao ponto final, cinco minutos após haver embarcado no inferno ambulante. Lar doce lar. Está chovendo. As ruas cheiram à podridão e lixo azedo. Abro a porta de casa, à procura do abraço da minha mulher mas ela não está. Dou minha cagada habitual, de olhos bem abertos para não ser surpreendido por alguma barata; mas não posso tomar banho ainda, pois não estou suficientemente alerta para vigiar as lacraias que podem-me comer vivo. Meu Deus foi para voltar para cá que eu trabalhei o dia inteiro? Sei lá. Não, não tenho energia para indagações filosóficas. Preciso descansar, talvez dormir. Felizmente o despertador está com corda para amanhã me acordar a tempo de recomeçar minha corrida imbecilizante...
Numa van a caminho de casa.
Por mim passa o vento,
Por mim passa a chuva,
Passam casais de mãos entrelaçadas
Passam frases de amor
Escritas no concreto da passarela:
"Caquinha, eu te amo, sua burra!"
Por mim passa a Vida...
Um dia passarei eu,
Efêmero,
Como juras de amor eterno.
(Esse menino ainda vai longe...lero:P lero:P...)
CARTA A UM POETA QUE NÃO SE SABE POETA
Ele tem uma escrita que parece rio estourando, no transbordamento cínico de todas as águas, além das margens, fulo de ódio, descarado, mudo de tristeza, rio que ninguém segura em seu lugar, ora barrento, ora azul celeste, que subverte a geografia para tentar entender seu próprio curso de rio rebelde, e vai, e vai, e talz... As palavras ele as deixa completamente nuas, envergonhadas, até. Ele as despe, começando por tirar todos os graciosos ornamentos que lhes dão respeitabilidade, mas que, no fundo, são diabólicos e falsos. Quer virar as palavras do avesso, rir da cara delas, amando e desprezando o que elas significam. Nada é sagrado em si mesmo, nem a Vida, nem a Morte, nem a Dor, nada, nada, muito menos a Gramática. Definir-se, tentar ao menos, ele vive fazendo isso. Mas é tão inútil, porque ele é um mistério mutante; nasceu assim... Consegue ser malvado consigo mesmo, de uma forma que espanta, que sacode; não quer se esconder atrás de nada, nem das verdades amargas, nem das mentiras doces, preferindo dizer o que pensa, de si e do mundo, sempre como se estivesse absolutamente sozinho. Talvez esteja, talvez não, nem ele sabe ainda. Todos nós, de alguma forma, sentimos algo semelhante quando éramos parte menino, parte homem... e havia um vasto mundo diante de nós, e toda as coisas ruins pareciam desabar sobre a nossa cabeça, como se nada jamais fosse dar certo. Ele, se vivesse em outro século, talvez fosse mais um entre os poetas malditos, um Charles Baudelaire, um Arthur Rimbaud, gente rebelde, criativa e valente, de quem ele é primo-irmão. Como é curiosa a vida... Ele é neto de poeta, mas não sabe que é poeta também... Acha que é um tipo de engenheiro... mentalidade, e talz... Faz arte, mas não vê arte no que faz... Queria escrever como “aquele” e “aquele outro”... mas escreve de um jeito único, seu, e apenas seu, e o faz com tanta vida, que a gente até fica pensando: se ele parar de escrever, pode morrer. Seria como se um rio se afogasse em si mesmo. Por isso eu termino este post fazendo um pedido: transborde suas águas, menino-homem-poeta, do jeito que puder... Vá em frente, garoto, escreva para lavar a alma, a sua e a nossa, e para assustar os malditos mortos-vivos, os apodrecidos recheados de vaidades, os prisioneiros da Gramática. Escreva! O resto... não importa... não importa mesmo... e talz...
Post dedicado ao Danilo, do Skatuaba
domingo, dezembro 02, 2001
sábado, dezembro 01, 2001
O homenzinho faz o possível para continuar dormindo. Dói menos assim. Há pouco tempo, ele era um adolescente louco e cheio de sonhos-esperanças. Mas a vida se encarregou de cortar suas asas. Ele escapou das drogas, mas não do trabalho assalariado.
Às seis e meia, o ônibus chega, lotado de peões como ele e sua mulher. Irmãos, irmãos em desgraça. No caminho, a fumaça tóxica do engarrafamento o faz despertar. A Dor recomeça. As putas em final de expediente doem dentro dele; o aleijado que pede esmola no ponto de ônibus dói dentro dele; os velhos em fila no posto de saúde doem dentro do seu coração. As putas, os aleijados, os velhos, todos seus irmãos. Todos com os pés atolados na mesma merda, que cheira a caviar, uísque, suítes, tv a cabo e trabalho assalariado.
Na fábrica, seus companheiros o recebem com o "bom dia" de suas vozes metálicas. Sua melhor amiga pede que ele lhe lubrifique um pouco a tendinite de seus membros mecânicos. Seu chefe passa correndo à procura de um mágico de Oz que lhe devolva o coração engolido pela Máquina.
Às cinco da tarde, o homenzinho já produziu seus dois milhões de cédulas de Cinqüenta Reais e o Superintendente abre os grilhões para que ele possa voltar para casa. A Máquina precisa descansar; afinal, ela vale Três Milhões de Dólares enquanto a saúde humana não vale um peido apertado.
Ao chegar em casa, um banho rápido, um prato de comida, um pouco de tv e uma foda cansada. Meia-noite: Durma, homenzinho, dói menos assim...
quinta-feira, novembro 29, 2001
Minha Alegria dança com meu Nojo
No baile diário no Salão das Baratas
E se irrita no banho no boxe
Cheio de lacraias.
Na escuridão do racionamento de energia
O vento varre minha poeira de estátua para longe
Enquanto procuro por um par de sapatos que me ajude
a sobreviver a uma festa de casamento.
O Vento varre a poeira para o Longe...
O poeta morreu
E as palavras me vêm como mensagens do Além.
(Se ele pudesse salvar-se a mim-mesmo,
Isto me faria feliz?...)
Muita música,
Muita alegria,
Muitos lugares a ir
E sempre, sempre o Palhaço de alma triste.
O Vento varre a poeira para o Longe...
Não me lembro de quem fui,
Mas sinto saudades de quem sou.
Pouco tempo, pouco dinheiro e compromissos não desejados. Limitações demais. Raros milagres. Meu Destino foge de mim, cavalgando o raio...
Lá pela época dos meus treze anos, Elisângela e Patrícia apaixonaram-se por mim, sabe lá Deus por quê. Minha cara sem expressão era coberta de espinhas, meu corpo era pequeno e minha cabeça, enorme. Patrícia tinha também treze anos, seios firmes e me pagava picolés sempre que eu queria. Elisângela tinha onze e nada para me oferecer além de uma bocetinha imberbe, cujo cabaço havia sido estraçalhado pouco tempo atrás pelo pênis enorme de Cláudio, o “Porquinho”. Passávamos o dia inteiro dentro de uma casa abandonada, aprendendo a foder. Para mim, tudo começou ali – bocas, bucetas, cus, orgasmos, lágrimas, sangue, merda, mordidas, traições, obscenidades, tapas, socos e pontapés, tudo.
Depois de algum tempo, ambas me abandonaram e saíram à procura de meninos maiores que as alargassem um pouco mais. Nada senti; na época as mulheres não eram importantes para mim, e não o seriam por um longo tempo. O que eu sentia era uma ânsia biológica por bucetas.
Patrícia ficou grávida de um vendedor de cachorros-quentes seis meses depois. Elisângela tornou-se uma das mulheres de um famoso traficante e, após a morte deste, tornou-se uma prostituta profissional. Um conhecido a viu na praça Tiradentes e disse que tem uma buceta enorme... Cláudio, o “Porquinho”...
Estou cansado, profundissimamente cansado. Anseio encontrar um pote de ouro para ficar rico e poder isolar-me do convívio com pessoas. Um telegrama no aniversário, um cartão no Natal, e isto me basta. Nenhuma pressa, nenhum desespero, nenhum telefonema. Se eu seria feliz assim? Não. Mas prefiro estar em paz a ser feliz.
Estou cansado. Ardem-me os olhos e meu cérebro está anestesiado. Felicidade seria voltar para o útero da minha mãe.
Coisas as quais eu não necessito.
Uso palavras que me tornaram o maior amante do mundo.
Meu talento é escrever sobre nada,
Por isto, agora que estão acontecendo coisas,
Não tenho nada para escrever;
Nada,
Senão,
AMO MINHA PRINCESA!
quarta-feira, novembro 28, 2001
No mais, muitíssimo trabalho e serão no próximo final de semana. Muita coisa para postar, muito pouco tempo. Como disse Mario Quintana, "a vida não dá tempo para a Vida"...
terça-feira, novembro 27, 2001
sábado, novembro 24, 2001
Os carros continuam passando. O barulho nunca cessa.
Enquanto eu vagava, quase sonâmbulo, por programas estúpidos na tv, uma barata invadiu meu quarto. Convidei-a para um sexo à três, mas ela não aceitou. Usei então contra a desgraçada um inseticida sabor laranja, delicioso.
Não se deve escrever pensando no que os leitores irão achar. Estou escrevendo para mim mesmo, como sempre. Não estou tentando ser compreendido. Tento fugir da miséria em que me encontro.
A barata está morta sob a cama; eu, acima dela.


